
O nosso projecto de participar no 4L Trophy começou com uma ambição desmedida, mas foi graças a ela que vivemos dias inesquecíveis na nossa primeira ida ao continente africano.
O 4L Trophy é uma prova para estudantes universitários que integra todo o terreno, solidariedade, aventura e gosto por desafios. Este ano, 1100 equipasresponderam ao desafio. É uma prova exclusiva para Renault's 4L: são carros fiáveis, divertidos de conduzir e fáceis de reparar, graças a uma mecânica minimalista. Sem os confortos de um carro actual, claro está. A nossa nem aquecedor tem, e atravessámos os Pirinéus e o Atlas.
O objectivo humanitário do rally cumpre-se quando cada carro entrega os 50Kg de material trazidos das cidades natal até Marrocos. Aí será distribuído a associações que operam no terreno no sentido de dar melhores oportunidades de estudo a crianças marroquinas. Pedimos a ajuda da escola secundária de Sines, e a adesão foi tal que quando recolhemos o material, em vez deixámos de ter chão da sala à vista: eram 80 kg.
Quando começámos o projecto faltavam apenas 3 meses para o rally, e todas as datas sensatas para preparar algo deste género tinham sido ultrapassadas. A nossa equipa era inicialmente composta pelo piloto (Rui Carvalho) e a co-piloto (Alina Sousa); ambos trabalhadores a tempo inteiro, em fases de avaliação do mestrado e com responsabilidades em outros projectos que nos tomam bastante tempo. Sabendo que ia ser muito complicado, tínhamos também a certeza que era uma experiência única na vida.
Posto este cenário, por onde começar? Pelo mais importante, a equipa, de seu nome deAlmaseBagagens. Reunimos uma equipa de entusiastas pelo projecto, e em pouco tempo éramos cerca de oito pessoas organizadas e desejosas de ver o nosso carro a chegar à linha de partida.
Duas semanas antes da partida, não tínhamos carro, nem inscrição, nem transporte para Bordéus (onde começava o rally). Com todos os motivos sensatos para desistirmos, acreditámos sempre que haveria uma forma de participar, até que finalmente conseguimos. Comprámos o carro dia 4 de Abril, no Porto. Pertencia a um estudante que o comprou com o intuito de fazer o 4L Trophy do ano passado. Depois de comprar a carrinha e em plena época de exames, apenas tivemos tempo para fazer uma preparação mecânica de três horas! Aconteceu na Confraria dos amigos 4L, onde cederam uma noite para lhe fazer uma revisão e algumas afinações.
Como não conseguimos transporte, arrancámos no dia 15 de Fevereiro na 4L em direcção a Bordéus, onde fizemos a inspecção técnica. O stress neste dia era muito, sabíamos que se fosse detectado algum problema grave no carro não poderíamos participar... Mas estava tudo bem e estávamos oficialmente no 4L Trophy! Dois dias depois estávamos em Algeciras, prontos a passar para África.
Em Algeciras tivemos a visita da Confraria dos Amigos 4L, foi espectacular poder contar não só com o seu apoio, mas com o espírito positivo e energia que a comitiva de 8 4L's portuguesas nos transmitiu.
Quando estávamos a entrar no barco para África, eram 5 da manhã e chovia torrencialmente, a correia da bomba de água se desfez. Se deixássemos o carro ligado podíamos gripar o motor, e se o desligássemos e ligássemos cada vez que a fila andava podíamos esgotar a bateria (aquela correia é a que carrega a bateria). Resultado: empurrámos o carro naquela chuva gelada.
Foi neste estado de nervos que chegámos a África. E foi também nesse momento que vimos o sonho ganhar contornos de realidade.
Numa das noites acampámos junto do deserto de dunas, aquelas típicas dos filmes e fotos do Sahara. Quando a Alina estava a dormir, fui fazer um passeio pelo deserto. Quando estava a cerca de 3 km do acampamento, procurei o ponto mais alto e fiquei lá a apreciar a vista, que era um manto negro sobre as formas sinuosas do topos das dunas, e o acampamento lá ao fundo. Foi então que reparei numa nuvem de fumo a meio caminho do acampamento. Decidi ir lá ver o que era, e quando estava perto vi o que parecia ser um fogueira apagada com algumas rochas à volta. Mas quando estava quase a achegar, as rochas mexeram-se e levantaram-se. Seria natural encontrar Berberes no deserto, mas não sabia qual ia ser a reacção deles com um desconhecido a invadir o acampamento; estava tanto à espera de um sinal de agressividade como de amizade, e fui até eles. Afinal eram nossos colegas do rally, muito mais assustados que eu por verem um vulto em direcção a eles vindo do interior do deserto. Depois de horas de cerveja e conversa, decidi voltar à tenda. Ainda encontrei outro grupo no topo de uma duna, e estive a fazer snowboard com eles.
Durante a prova atravessámos o poderoso Atlas, e por conselho de equipa do ano passado levámos bastantes agasalhos. Logo na primeira noite em Marrocos apanhámos ventos de 100km/h no cume de um dos picos, e o facto de levarmos dois sacos-cama cada um salvou-nos a noite.
Nos dias seguintes transpusemos dunas em que ninguém diria que um carro com 25 anos e 34 CV conseguiria atravessar. De facto é provável qie tenhamos sido campeões absolutos na areia, pois nunca atolámos nas etapas de dunas. A nossa técnica era ir sempre de pneus vazios com o acelerador a fundo, fosse qual fosse a mudança. Graças a isso passámos por centenas de 4L's atoladas, sem nunca termos parado. De tanto esforço que colocávamos o motor, a água do depósito do radiador fervia literalmente, tanto que podíamos ouvir do interior do carro. Depois de vinte minutos a arrefecer, estávamos prontos para partir novamente.
A navegação não era das mais fáceis, e algumas vezes só era possível de dia. Na etapa de dunas, várias equipas foram resgatadas às 07h00 do dia seguinte, por deixarem de ter pontos de referência à noite. Algumas passaram esta noite sem água, e uns amigos nossos chegaram visivelmente debilitados para a etapa maratona, do dia seguinte.
Achámos bastante curioso que por mais longe que estivéssemos de uma povoação e andássemos há horas em paisagens desérticas, literalmente em todo o lado haviam crianças a aparecer junto à estrada a vibrar com a nossa passagem. A simpatia transmitida pela quantidade imensa de crianças que aquele país tem foi aos poucos e poucos tornando-se numa das melhores recordações do Trophy.
Mas nem sempre chamam a atenção da melhor forma. No início da etapa maratona emprestámos um dos nossos pneus sobressalentes a outra equipa, e algumas horas depois, algumas crianças estavam a colocar pedras no caminho para nos fazer parar, e uma das pedras destruiu um pneu.
Durante essa tarde tínhamos recolhido alguma lenha, e à noite fizemos um acampamento com fogueira algures numa enorme planície desértica, apenas com algumas árvores a compor a paisagem. No dia seguinte, nem 5 km andámos antes de bater numa pedra enorme. O pneu estava em baixo e já não tínhamos sobressalente... Mas tínhamos uma marreta! Martelámos a jante até voltar ao lugar, e funcionou. Nesse dia atravessámos o Atlas de noite, e podemos dizer que foi a parte mais perigosa de toda a viagem. Os condutores marroquinos ultrapassavam na estrada de montanha sem visibilidade, colocando as vidas deles e dos participantes em risco.
Se no início tínhamos medo de não chegar, a meio mudámos de forma de pensar e decidimos que o mais importante era aproveitar ao máximo. A partir daí exigimos mais da mecânica, e estamos gratos por nunca termos desistido do sonho porque foram dos dias mais divertidos que tivemos nas nossas vidas. O que não teve solução foi a nossa espia conta-quilómetros, que com tanta pancada entregou a alma ao criador... Então em vez de rodar a casa das unidades, rodava a das centenas de milhar! Ainda fizemos a festa dos 999999 Km, e logo a seguir falámos em vende-la quando tinha só 6000Km.
Quando chegámos ao fim estávamos muito longe do estado de ansiedade inicial, quando nada parecia garantido. A pouco e pouco as preocupações do dia-a-dia ficaram para trás, e sobrava apenas a vontade de explorar mais aquele país e as formas de viver daquele povo. Quem tem responsabilidades sabe que mesmo que estejamos longe delas, a roda dentada continua sempre a funcionar... Desde há anos que não nos sentíamos tão livres, uma mistura de liberdade de adolescente com autonomia de adulto e claro, nesta fantástica competição humanitária. Foi tudo o que queríamos e mais.
A Alina foi a primeira mulher portuguesa a participar num 4l Trophy, e fizemos uma equipa que da sua inexperiência inicial, chegou a um excelente entendimento e capacidade de evolução. Estamos a programar novas aventuras em África.
Talvez seja um pouco por tudo isto que dizem que África vicia, e para nós foi verdade.
O balanço humanitário foi marcante: em vez das 60 toneladas esperadas, chegaram 80. A mudança que implica nas vidas daquelas crianças foi e será muito importante, e pode ser seguido no site da associação Enfants du Desert.
AGRADECIMENTOS: Agradecemos à Confraria dos Amigos 4L,Câmara Municipal de Sines, Publeventos, Naturasines, Restaurante Azenhas do Mar, Copyalot. Mas sobretudo, à nossa fantástica equipa (d)e amigos, por estarem lá e terem ajudado a tornar este sonho realidade.

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